Ensinar português para estrangeiros vai muito além de aplicar uma metodologia para ensinar português qualquer, copiada de um curso tradicional. Comecei a dar aulas em 2013 e, com os anos, entendi o que realmente funciona, seja você um professor experiente ou esteja apenas começando no PLE (português como língua estrangeira).
No início foi tentador copiar como ensinar português a partir do que faziam outros professores. Eu também fiz isso. Mas com a prática percebi que há muita coisa no ensino de português para estrangeiros com a qual não concordo, e que existe uma metodologia para ensinar português muito mais eficaz que a tradicional.
A seguir, compartilho as técnicas e estratégias para ensinar português que já comprovei que funcionam com meus próprios alunos: quais erros evitar, qual método usar no lugar deles e como resolver as situações mais comuns no ensino de PLE.
Se o seu objetivo é dar aulas de português para estrangeiros com melhores resultados, continue lendo: cada uma das 15 recomendações a seguir traz uma solução prática para você aplicar já na sua próxima aula de PLE.
VÍDEO: Como Ensinar Português Para Estrangeiros – PLE
1. Não foque apenas na gramática e na parte escrita no início
Qual é o problema?
A gramática é um aspecto muito estruturado.
Os alunos começam as aulas e muitas vezes se sentem confusos e frustrados com a quantidade de “receitas” que devem seguir e lembrar.
Com certeza, você deve lembrar como se sentiu quando começou a estudar um novo idioma.
Também como professor, é muito cansativo ver que os alunos olham para você com cara de quem não entende nada.
SOLUÇÃO
Comece as aulas com as semelhanças entre português e espanhol e o minicurso gratuito de 7 dias.
Mostre que esse novo idioma não é impossível, no meu canal há várias entrevistas de estrangeiros que aprenderam português.
Faça com que os alunos consigam entender a partir da semelhança com a própria língua e, uma vez que já estejam mais confiantes, aí sim você poderá passar para aspectos mais avançados.
Siga o processo natural de aprendizagem.
Passe pelas 4 etapas na seguinte ordem: entender, falar, ler e escrever.
Este é um processo já comprovado e tenho um vídeo específico para cada um deles.
Ensinar português é muito mais do que simplesmente falar sobre regras gramaticais.
2. Não proponha fazer listas de palavras e frases com traduções
O grande problema com isso é que os alunos nunca vão dissociar um idioma do outro.
Só é possível fazer isso se o que você está ensinando é tradução, e mesmo assim não pode fazer isso desde o início.
Traduzir vai levar à lentidão para falar, para compreender e para escrever.
SOLUÇÃO
Associe as palavras a um contexto.
Você pode utilizar a definição ou uma imagem.
Uma ótima ideia é fazer uma lista com imagens ao lado. (alguns exemplos a seguir)

Utilize esta lista de dicionários, você encontrará as diferentes definições de cada palavra e/ou expressão.
Você também pode criar o seu próprio, pegando as imagens do Google Imagens.
3. Não permita que os alunos escrevam da maneira como percebem o que ouvem
O nível de erros é impressionante, erros básicos que poderiam ser facilmente evitados por meio do contato prévio com o idioma.
Um dos principais problemas aos quais precisamos nos antecipar é que é muito mais fácil aprender algo novo do que corrigir um erro já existente.
Os erros se arrastam e se firmam de tal maneira que se transformam em hábitos.
SOLUÇÃO
Se a pessoa insistir que quer escrever desde o primeiro dia, ensine a ela o que escrever.
Uma das melhores ideias que destaco no vídeo dedicado especialmente à escrita é fazer transcrições.
O mais importante é ter certeza de que o que está escrito está 100% correto.
Às vezes, o principal desafio para ensinar português é desconstruir a metodologia tradicional com a qual o aluno já está familiarizado.
4. Convide a transcrever ou copiar um áudio ou um texto com lápis
Usar uma caneta não permite apagar e deixar tudo limpo.
Se escrever com tinta e tentar corrigir, tudo vai ficar bagunçado, e vai ser muito difícil para o aluno voltar a essa página e entender o que escreveu.
SOLUÇÃO
Uma boa ideia é que ele sublinhe as palavras ou frases que foram mais problemáticas para que, da próxima vez, se concentre nelas.
É importante lembrar que no caderno não pode haver vestígios de nenhum erro em português.
O aluno precisa estar em contato constante com o que está correto.
5. Ao ensinar português, não faça ditados sem ajudar os alunos
É muito frustrante para os alunos chegar a um ditado e não saber como escrever uma palavra.
Por outro lado, incentivar os alunos a adivinhar leva a erros, como falamos no ponto anterior.
A ideia é que eles nem sequer considerem certas possibilidades de escrever uma palavra de forma incorreta.
SOLUÇÃO
Faça ditados orientados.
Explique a que os alunos devem prestar atenção.
Por exemplo, você pode fazer uma primeira leitura do ditado indicando que uma palavra tem um acento circunflexo e exagerar onde ele está para que o aluno perceba.
Diga a ele que pode fazer perguntas sobre como se escreve cada palavra, caso tenha alguma dúvida.
O objetivo é evitar que os erros sejam cometidos, em vez de esperar para corrigi-los.
Lembre-se de sempre ditar frases e não palavras soltas, assim o aluno entende o contexto e treina a memória.
Antes de escrever, os alunos podem repetir e entender toda a frase.
Isso evitará que fiquem no modo piloto automático sem saber o que estão escrevendo.
6. Não use vermelho para corrigir
É muito frustrante para os alunos ver a cor vermelha, ver um xis ou ver a palavra “ERRO”.
Por outro lado, vai ser muito difícil que o caderno fique limpo e organizado para continuar estudando com ele.
A ideia é manter a motivação dos alunos em um aprendizado que pode ser difícil.
SOLUÇÃO
Sublinhe com lápis as palavras ou frases que contenham algum erro.
Não escreva a correção, espere a pessoa conseguir identificá-la e ajude-a nesse processo.
O aluno deverá apagar o que fez de errado e escrever certo, depois disso poderá sublinhar a palavra correta.
É uma boa forma de lembrar ¨atenção com esta palavra¨.
No final, tudo o que está escrito precisa estar 100% correto.
7. Não peça aos alunos que escrevam um resumo sem se certificar de que entenderam o texto
É possível resumir sem entender.
Basta pegar palavras do texto e organizá-las, mas isso não vai servir como exercício para aprender.
É apenas uma forma automática de resolver uma tarefa e ter a ilusão de que estão aprendendo.
SOLUÇÃO
Foque o exercício em fazer com que a pessoa dê sua opinião.
Ela pode fazer um resumo, mas sempre compartilhando o que pensa.
Outra vantagem é que eles também estarão treinando sua capacidade de argumentar em outro idioma.
É interessante fazer perguntas relacionadas ao conteúdo discutido para estimular mais argumentos e comentários.
Aqui você poderá encontrar algumas DICAS para escrever uma resenha (crítica, descritiva, temática).
8. Não faça perguntas de múltipla escolha (multiple choice)
Muitos alunos podem saber a resposta, mas ver opções erradas pode confundi-los e até mostrar uma grafia que não é conveniente para o aprendizado deles.
Se você realmente busca ensinar português, nunca faça algo que possa confundir o aluno.
Qual seria o objetivo de mostrar a eles várias formas de fazer algo errado quando o que eles buscam é aprender o correto?
Lembre-se de que o objetivo é fazer com que aprendam, não confundi-los.
SOLUÇÃO
Utilize exercícios de completar espaços em branco.
Podem ser espaços para que o aluno complete com a opção correta e, assim, avaliar sua compreensão do contexto.
Uma alternativa pode ser exercícios com espaços em branco e opções, mas em que todas estejam corretas, perguntando simplesmente qual delas o aluno usaria.
Uma terceira possibilidade é um exercício de sinônimos ou de definições, mas que não confunda os alunos.
9. Não aceite frases curtas sem contexto
É muito comum que os professores peçam que os alunos façam frases utilizando alguma palavra, por exemplo, garrafa.
Se o aluno nos disser “Tenho uma garrafa”, não temos como saber se ele entende o que isso significa e, se estivermos com outros alunos, ouvir isso não vai ajudá-los a entender.
Precisamos dizer a eles para se exporem o máximo possível.
SOLUÇÃO
Peça para que ele comece uma frase que não seja sempre com “Eu”, mas sim com outras referências de tempo para variar.
Faça perguntas de acompanhamento para motivá-lo a expandir a ideia.
Utilizando o exemplo da ¨garrafa¨
O aluno pode dizer:
- Ela me convidou para viajar e comprei uma garrafa.
- E por que você decidiu comprar essa garrafa?
- Porque eu queria fazer uma caminhada mais ¨larga¨ (longa) com meus amigos e precisava me hidratar muito.
Neste caso, confundir o ¨larga¨ com ¨longa¨ é um erro comum entre hispanofalantes aprendendo português.
Nesse momento, o professor já poderia fazer uma correção.
Se não fosse por se estender na frase, o erro não teria ficado evidente, seria uma oportunidade de correção perdida.
10. Não faça na aula exercícios que podem ser feitos em casa
Quase nenhum aluno tem mais de quatro horas de aula por semana.
A maior parte do tempo ele está em casa, onde pode ver vídeos ou ouvir áudios.
Não é necessário usar o tempo limitado da aula para ver um filme.
SOLUÇÃO
Utilize o tempo de aula para resolver dúvidas ou para ter conversas de acompanhamento.
Você pode perguntar sobre o que ele quer falar, mas em português.
Aproveite para trabalhar a pronúncia e a parte escrita no início da aula.
Assim que o aluno já souber escrever sem muita dificuldade, você pode enviar atividades de escrita como tarefa de casa.
Mas quando está começando, é melhor revisar ao vivo o processo de escrita.
11. Não invista tempo em coisas simples
Há muitas coisas que podem ser aprendidas on-line: números, cores, etc.
Não é necessário desperdiçar tempo dando uma aula sobre temas que cada um pode estudar por conta própria e que não oferecem tantas dificuldades.
SOLUÇÃO
Aproveite o tempo de aula para mergulhar nos detalhes e nas dúvidas.
Eles já aprenderam os números, as cores, os animais, etc.?
Agora eles podem fazer frases com o novo vocabulário que viram nas aulas, aplicando o português básico.
Quanto mais consomem conteúdo nativo do Brasil (artigos, podcasts, entrevistas, revistas, etc.), mais dúvidas terão nas aulas.
12. Não dê a todos os alunos o mesmo material para trabalhar
Cada um tem sua própria motivação, então não faz sentido que todos trabalhem com o mesmo material.
Além disso, a troca pode trazer inovação para a aula.
SOLUÇÃO
Você pode recomendar a eles esta página com uma lista bem variada de conteúdo em português feito para brasileiros.
O objetivo é que eles consigam consumir um conteúdo mais avançado direcionado ao público brasileiro.
Talvez no início seja um desafio, mas será possível aprender muito mais dessa forma.
13. Não faça cada aluno ler um parágrafo se o grupo for grande
Seguindo o que falamos no ponto 12, busque grupos reduzidos.
Imagine uma sala com 15 alunos, cada um lendo um parágrafo.
Certamente as pessoas ficam entediadas.
Mesmo que não fiquem entediados, não estarão aproveitando ao máximo o tempo para falar português.
SOLUÇÃO
- Dividir-se em pequenos grupos de no máximo 3 pessoas
- Cada pessoa escolherá uma parte do parágrafo
- Entre eles decidem quem vai ler o quê
Depois, o professor passa por cada grupo anotando os erros de pronúncia.
Após 15 minutos, faça uma pausa para comentários, este é o momento para mencionar a pronúncia correta.
Ao retomar a atividade, o aluno pode ler outra parte do parágrafo, agora já levando em conta as observações.
14. Consiga conversas fluidas em grupos de três pessoas
Não faz sentido ter um grupo de 20 pessoas em que cada um fala do seu próprio assunto.
A riqueza do idioma e da motivação está na troca.
SOLUÇÃO
Divida o grupo para que falar passe a ser conversar.
Aproxime-se de cada minigrupo para corrigir a pronúncia de forma mais individualizada.
Os temas também podem ser mais variados, aqui você encontrará páginas com conteúdo em português.
Você também poderá utilizar esta lista de perguntas para quebraro gelo e fazer com que os alunos se sintam mais confortáveis para praticar português.
15. Não avalie os alunos sobre um tema que não interessa a eles
Você nunca vai saber o nível de português de uma pessoa fazendo com que ela fale sobre algo que não sabe ou que não lhe interessa.
Imagine que avaliassem meu nível de português me pedindo para falar sobre engenharia mecânica.
Sou brasileiro, mas mesmo assim diriam algo como: ¨Tem um nível muito básico, vocabulário limitado, também não sabe expressar seu ponto de vista.
Como saber o nível de português
SOLUÇÃO
Descubra qual é o tema favorito do aluno e peça para ele falar sobre isso.
O fato de estar mais em contato com o tema em questão proporciona mais naturalidade para falar.
Se o aluno não sabe falar sobre seu tema favorito em português, é porque seu nível está muito baixo.
Tenho certeza de que essas recomendações vão te ajudar a ensinar português com mais facilidade.
Seguir a ordem natural de aprendizagem — entender, falar, ler e escrever — começando pelas semelhanças entre o português e a língua do aluno. Evitar o foco excessivo em gramática logo no início ajuda o estudante a ganhar confiança mais rápido.
PLE é a sigla usada para o ensino do português a quem não tem o idioma como língua materna. Professores de PLE trabalham com metodologias próprias, diferentes das usadas no ensino de português para brasileiros nativos.
Uma metodologia eficaz evita listas de tradução e associa palavras a contexto, imagens e situações reais. Também prioriza correção sem vermelho, ditados orientados e conversas em grupos pequenos de até três pessoas para gerar mais prática oral.
Focar demais na gramática logo no início, deixar o aluno escrever por tentativa e erro, usar caneta em vez de lápis nas correções, aplicar perguntas de múltipla escolha e dar o mesmo material para todos os alunos, ignorando interesses individuais.
Evite caneta vermelha ou a palavra “erro”. Sublinhe a palavra com lápis e deixe que o próprio aluno identifique e corrija o problema — isso mantém o caderno organizado e preserva a motivação durante o aprendizado.


